Outro dia, num momento de ócio total e com a internet à minha frente (combinação explosiva!), comecei a fazer um desses testes de personalidade em algum site. A primeira pergunta era mais ou menso assim: "Em queal desses grupos de adjetivos você se encaixa melhor? a) Agitado, criativo, aventureiro. b) Poético, sensível, romântico. c) Determinado, racional, prático. Fiquei perdida. Minha mãe sempre fala que sou criativa. Mas também me acho sensível. E muitos amigos me consideram bem racional. E aí? Que alternativa escolher?
Fiquei pensando. É engraçado esse nossa mania de definir o jeito de ser, o nosso e o dos outros, com algumas palavras. Se nossa personalidade fosse a mesma sempre, nosso comportamento seria bem previsível, né? Imagina: se uma amiga sua agisse de forma egoísta na hora de dividir um bombom, ela também seria egoísta na hora de viajar, de fazer um trabalho em grupo. Afinal, "egoísta" está escrito na testa dela e, pensando bem, você nem ia querer tê-la como amiga, certo? A não ser que "boba" estivesse escrito na SUA testa. Mas a nossa personalidade é bem mais complexa que isso.
Essa sua amiga que é egoísta para dividir doces pode ser uma ótima colega de trabalho em grupo. E (sem ofensas!) você pode ser uma boba para algumas coisas e bem esperta em outras. Tenho uma amiga que acho muito engraçada. Mas, quando conheci um cara que trabalhava com ela, constatei que nós a descrevíamos de maneiras opostas: é que, no trabalho, ela era superséria! Por isso, acho que faz mais sentido nos caracterizarmos não baseados nos adjetivos, mas nas situações: nas ocasiões tais, a pessoa costuma agir de tal maneira (costuma!). Em vez de fulano é assim.
Isso evita muita injustiça. Porque, se a gente acha que os outros são tão simples a ponto de encaixá-los em uma lista de itens, a tendência é rotulá-los. E, aí, vamos achar que aquela garota que é tagarela na escola não vai ficar quieta no cinema, e por isso nunca a convidamos para um filme, e nunca seremos amigas dela, e nunca seremos felizes! Ok, exagerei, mas você entendeu.
Para complicar ainda mais, você pode ser egoísta/tolerante/melancólica/etc. em algumas fases e, em outras, não ser. Aliás, nem precisa ser fase, mas hora do dia: sua amiga que odeia dividir doce pode estar a fim de te dar um pudim amanhã! Sem contar as tan, tan, tan, taaan... mudanças da vida. Você pode ter sido uma exemplar X e, agora, ser uma adorável Y. Claro, aquela sua tia vai jogar na sua cara seu passado de X, mas fazer o quê? Quem muda (ou seja, todo mundo) lida com isto: essa resistência ao nosso novo eu.
Bom, depois de viajar tanto sobre essas questões (vocês sabem como eu viajo!), desisti do teste e saí do computador. É impossível definir minha dinâmica personalidade respondendo a dez perguntas, e eu não estava nem um pouco a fim de perder tempo com isso.
Ah, posso falar a verdade? Respondi letra C, fiz o teste até o fim e fiquei superfeliz quando recebi, no resultado, um diagnóstico de quem eu sou. E me identifiquei, mesmo sabendo que não sou daquele jeito sempre. Quem disse que teste é para ser levado tão a sério? Teste é sempre meio de brincadeira, meio de verdade. E eu me divirto muito com eles.
[Liliane Prata é viciada em teste]
Crônica de Liliane Prata retirada da Revista Capricho (ed. 1097) na coluna "Desneurando"
Um comentário:
É, eu vejo bem desse lado também, tipo, uma pessoa age conforme a situação é colocada para ela, a hora em que é colocada, o dia, o jeito! Tem sempre um porém, uma contra-regra! :)
Adorei seu blog, o estilo, tudo!
:*
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